Os ricos óscares

Estou aqui a meter-me numa alhada de todo o tamanho. Eu sei. Meter-me no meio deste mundo de quem realmente percebe da poda. Mas pronto, eu gosto de arriscar a minha vida. Aqui vai disto.

No passado domingo foi a grande, grandiosa, maravilhosa, estonteante, brilhante noite dos óscares. Assim diz quem sabe disto. E eu acredito. Mas digo-vos uma coisa: a olhar para os famosos na passadeira vermelha não diria nada disto. Mas se dizem que é, quem sou eu para dizer que não.

Eu não vi a gala. Dá lá a horas de uma pessoa ver a gala. Deus m’livre. Mas vi todoooo o tipo de resumos no dia seguinte. Sei quem ganhou, quem perdeu. Mas o que realmente importa são os looks. Acreditem lá nesta última frase que eu não sou menina para mentir.

Preparados?

Comecemos então p’la Billie. Querida Billie, tratemo-nos por tu. Cantas nas horas rapariga. O teu momento na gala foi de arrepiar o pelinho mais escondido deste meu pequeno corpo. Não te chega cantar nas horas? É preciso vir com uma alface na cabeça? E essas unhas mulher? Cada uma dividida em cinco, dava para cinco mulheres. Nem vou falar na roupa, filha. É Chanel.

Billie Eilish
Billie Eilish

Billy Porter. Billy, Billynho. Ouve-me com atenção: já percebemos que queres ser diferente, já conseguiste que o mundo olhasse para ti como um visionário quando nos apareceste com aquele fato com uma saia, mas vá… já chega. Tens de aparecer mais compostinho. Não vale tudo.

Billy Porter
Billy Porter

Laura Dern. A nossa Laurinha que gosto tanto de a ver em filmes, pediu os berloques das cortinhas à minha avó, a sua colcha cor de rosa mais querida, meteu os dois na bimby e saiu isto. Valeu o esforço, Laura. Ao menos ninguém te pode dizer que não é um Armani.

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Laura Dern

A Janelle Monáe quer dar uma reviravolta aos Óscares. Disse-me no outro dia que já estava saturada de ver os Óscares em dourado. Mas longe de mim imaginar que ela fosse de Óscar em prateado. Olha amiga, pode ser que entendam a dica.

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Janelle Monáe

Querida Saoirse Ronan, ás vezes também me acontece. Dá-me um inchado na barriga que só mesmo com folhos o disfarço. Fizeste bem. Só não devias era ter levado a mantinha da minha bisavó a fazer de saia. Ela não ia gostar.

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Saoirse Ronan

Kristen Wiig. Amo-a de paixão. Mas não a consigo perdoar por roubar o espanador lá de casa. Faz-me falta. E não posso olhar várias vezes para o vestido. É que de quando em vez faz-me lembrar aquelas imagens do interior de um intestino. Deus m’livre.

Kristen Wiig

Só quero dizer que a Sigourney Weaver tem 70 anos. Obrigada.

Sigourney Weave

Scarlett Johansson a mostrar quem manda. Se amo? Não… mas no meio de tanta coisa má, isto é ouro.

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Scarlett Johansson

Charlize Theron a sambar na cara das inimigas. Menos é mais pessoas. Linda, Charlize. Mas és capaz de mais, acredita em ti!

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Charlize Theron

Aleluia!

Ontem saiu atualização da lei sobre as baixas médicas para cuidado dos filhos. Passa de ser paga a 65% para ser paga na totalidade. WOW! Certamente terá sido sugerida por alguma mãe ou pai deste governo que teve um filho doente neste pico da gripe. Apostava um dedinho de uma mão. E olhem que o dedinho faz-me falta.

Era só descabido uma mãe/pai ficar em casa a cuidar de um rebento doente e receber menos 35% do seu vencimento. É que para além de sofrer pelo filho ainda via menos euros na conta bancária no final do mês. É que era tudo a ajudar.

Mas atenção, isto parece básico, mas ainda há quem ache que as mamãs e os papás deste país quando ficam de baixa com um filho doente, é para pôr em dia os episódios das suas séries preferidas enquanto se lambuzam com chocolates, pipocas, whatever. “Ah! o teu filho está doente? Vais ficar em casa com ele? Aproveita para descansar.” A malta tem de pôr mais tabaco. Ou isso ou ter filhos. Escolham.

Vá lá, fez-se luz nestas alminhas que nos governam.

Fixe, fixe era essa luz permanecer por cá mais uns diazinhos e as ditas alminhas verem outras luzes por cá.
É que parece que não, mas já estamos em 2020.

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Que o raio ilumina as mentes deste país

50 anos

A Dona Fátima fez anos. Entenda-se por “Dona Fátima” a senhora minha mãe. Nascida a 17 de janeiro de 1970. Completou na passada sexta-feira 50 anos. Meio século. Xiça, isto dito assim tem outro peso.

Fez anos e adora. Sempre adorou. Diz que é sinal que ainda cá anda. E eu concordo. Também adoro. Herdei isso dela. Recorda-se dos tempos de criança em que não tinham possibilidades e nunca deixavam passar uma data em branco. São 5 irmãos e a senhora sua mãe (que por sinal é minha avó) fazia questão de festejar sempre cada aniversário. No fundo, celebrar a vida. Apoio a ideia.

Fizemos-lhe uma surpresa. Fingimos que não íamos festejar, que não ia receber presentes, que ia ser um dia normal.

Quando por volta das 18 horas fui buscar o Sr mini António a sua casa, estava triste. Recebeu presentes, recebeu beijinhos, mas não estava a ser como ela achava que iam ser os 50 anos. 50 anos tem aquele peso da mudança. Parece que vai haver uma viragem, não é? E ela sentiu que não estava a ser um dia a esse nível. Com toda a razão.

Chegamos em peso, com refeição a preceito e bolo como manda a cerimónia. Os olhos iluminaram-se, o sorriso rasgou e de repente “ah, agora sim faço 50 anos”. Como merece.

Não é por ser minha mãe, mas merece. Tem muitos defeitos (como todos nós), falha, erra, nuuuuunca pede desculpa, mas está lá. Sempre. É das melhores pessoas que conheço, e não é por ser minha mãe, até porque nem sempre soube reconhecer isso. A idade traz-nos alguma sabedoria para saber ver coisas que não víamos. Acho que só aprendi a ver quando fui mãe. É uma viragem, não é? É muito difícil ser mãe. E a nossa mãe ensina-nos. Não imagino como teria sido este processo de aprendizagem sem ela. Ensinou-me a ser mãe deixando-me ser. Sem nada dizer. Só deixando-me ser. Ensinou-me (sem nada dizer) que eu sabia o que fazer. Sabia ser. E sabia. Tinha um grande exemplo por trás. Nunca lhe disse isto, mas sei que ela sabe que é que isto que sinto.

Tenho pena que haja uma grande probabilidade de ela já não viver outro tanto. Mas que seja o máximo possível e em bom! Com o António nos braços. O António que é o meio pela qual lhe digo que a amo.

Quando Eles ficam doentes

O meu bebé esteve doente. Em 12 meses tivemos muita sorte: ficou doentito apenas uma vez, tinha um mesito. E de resto só o pinguito no nariz. Um bebé super saudável, cheio de energia.

Na passada quinta-feira, quando cheguei a casa, ele estava diferente. Tinha os olhos vidrados. O rosto rosado e a minha mãe diz-me que ele durante o dia este rabugentito. O que não é de todo normal. Alerta para que algo se passava. Chegamos a casa, medi a temperatura: 39.7. Alerta vermelho no coração de uma mãe. Dei ben-u-ron e vamos lá aguardar que esta temperatura baixe. Nada. Não baixou. Zerinho. Tiramos roupa e deixamos o pequeno só em body e meias calças. Vamos medir temperatura: nada. 39.8. Não baixa.

O que faz uma mãe quando não sabe o que fazer?! Liga à mãe. Do outro lado ouvi: dá um banho tépido. Lá fomos nós para o banho. O António começa a levar com a água e no mesmo instante começa a tremer incessantemente. A ficar roxo. Ás manchas. Alerta laranja. Peguei nele ao colo, ele agarra-se ao meu pescoço e no mesmo momento em que para de tremer, adormece. O meu coração estava apertadinho, apertadinho. Ligo à pediatra: deve ser reação da vacina. Ok, faz sentido. Já passara uma semana, mas os bebés não são todos iguais nas reações. Vamos então ver como corre a noite. 39.7; 39.8; não baixa!

Ligamos à pediatra: vamos dar ben-u-ron e brufen intercalado. De 4 em 4 horas. E estar atentos aos sintomas. Ok, mais umas horinhas de coração nas mãos. Alto! a temperatura baixou… 37! ufa, não tem febre. Passa uma hora, passam duas, passam três. Yeah! Não há febre! Está animado, com energia. Yeah! foguetes!

16h: medimos temperatura – 36.0 Top! 16h30: olhos vidrados, “mamã, mamã”, rosto rosado, lábios roxos, corpo manchado. Temperatura: 40.0. What? Como pode ser se há meia hora tinha 36?! Ligar à pediatra e do outro lado ouvimos um: hospital.

E lá fomos: infeção nos ouvidos. Como assim? Mas ele não chora. Tocamos e ele não se queixa. “O seu bebé é tolerante à dor mamã”. Oh meu deus, dor nos ouvidos é terrível e ele não se queixa. O meu bebé com infeção nos ouvidos.

Quem está a ler isto está a pensar: esta moça bate mal da cabeça. É só uma infeção nos ouvidos. Não é o fim do mundo.
Esse pensamento eu também já tive: antes de ser mãe. Agora, as dores do meu filho são infinitamente maiores do que são na realidade. É como se uma dor que em mim é igual a zero, nele sinto-a incapacitante. Como se me sentisse inútil. Como se não conseguisse fazer nada por ele. E na verdade não consigo. Sigo as instruções médicas e dou o colo máximo que consigo dar. É suficiente? Sinto que não. Mas olho para ele e percebo que realmente o que ele mais queria era o colinho da mãe.

Era uma simples infeção de ouvidos, mas senti que o mundo tinha parado. Os relógios pararam. Não havia mais nada para além dele. A vida durante estes dias foram resumidos a colo, medir temperatura, apalpar a testa, olhar para os olhinhos, acordar de hora em hora para verificar. Caiu-me a ficha: passei para segundo plano. Ele é a prioridade. Para eu estar bem ELE tem de estar bem. É só isso que importa. ELE.

Colo, Colo, Colo, Colo, Colo, Colo, Colo

Tenho estado ausente. Isto de ter dois trabalhos, ser mãe, mulher, namorada e ainda ter a mania que escreve aqui umas coisas dá cá uma trabalheira. Nem vos digo nada. A verdade é que quem corre por gosto, cansa, mas continua.

Há uns dias perguntei no Instagram (@amaedoantonio__)e na página do Facebook de “A Mãe do António” o que achavam quem me segue do tema “Colo”. Em todas as respostas obtive um “Sim, Sim, Sim!” Thank God. Mas sei que muitos não responderam porque sabiam à priori que a minha resposta era positiva, e para não haver aqui opiniões contrárias, os do contra não responderam. Amigos na mesma. Que seria do amarelo se todos gostassem do azul?

Neste tema, amiguinhos, vamos lá pôr os pontos nos ís: colo sim! Colo sim, senhor! Não estou cá com meias medidas. E aviso desde já que há dois grupos de pessoas que não devem continuar a ler este post: as demasiado lamechas e as que têm uma pedra de gelo no lugar do coração.

Antes do António nascer sempre pensei que ia ser uma mãe do meio termo. Não queria ser o 8 nem o 80. Não queria mimar nem 8 nem 80. Não queria dar colo nem 8 nem 80. A verdade é que ele nasceu, olhou para mim nos olhos e disse-me sem falar: “Ora prepara lá o teu coraçãozinho, porque agora quem manda nesta m**** toda sou eu”. E eu como sou uma menina muito bem educada e obediente obedeço ás suas ordens desde então.

Lembro-me perfeitamente de o António ter cerca de 1 mês e uma amiga veio lá a casa visitar-nos. Hora da mama. O António mamou e adormeceu na mama. Eu tapei a mamoca (que achava eu não era coisa que se andava por aí a mostrar. Pois bem, foi a coisa que mais mostrei durante 5 meses), e continuei na converseta com a amiga, enquanto o António dormia … no colo. Isto gerou surpresa. A pessoa perguntou-me “Tu deixas o menino dormir no teu colo assim?” Deixo. Deixei. Ele agora já não quer. E foi isto que lhe disse “Deixo. Ele é pequenino, precisa de todo o conforto que eu lhe posso dar. Ele daqui a um tempo já não vai querer dormir no meu colo”. Certinho, já não quer. Com muita pena minha.

A juntar à pergunta anterior ouvi muitas outras: “Tu adormeces o menino no teu colo?! Olha, depois não o vais conseguir adormecer de outra maneira!” ups, o António já não quer adormecer ao colo já vai pra lá de meio ano; “Tu comes com o António ao colo? Olha depois vais querer comer descansada e ele não te vai deixar!” Isto é realmente verdade… Ele agora não me deixa comer descansada, MAS PORQUE QUER DA MINHA COMIDA. Quer lá saber do meu colo enquanto estou a comer. Quer é comida; “Tu andas sempre com o menino ao colo, depois quando fores trabalhar ele não vai querer ficar com ninguém!” Eu acreditei que isto fosse verdade. Até ele aprender a dizer “Xau”. O sacana mal me vê a pegar nas trouxas levanta a mão e abana como quem diz “Ainda aqui estás? Vai trabalhar que alguém precisa de ganhar dinheiro para as minhas fraldas.”

Os bebés são isso mesmo: bebés. E se há coisa que me rói é a sociedade querer que os bebés sejam adultos. Os bebés são bebés. Precisam de afeto, de colo, de beijos, de mimos. Precisam de dormir no nosso colo. Precisam de adormecer ao nosso colo. Precisam de quentinho. De calor. De conforto. De beijos. De abraços. De mimimis. Os bebés só são bebés uma vez. De repente, abrimos os olhos e eles já não querem colo. Já não querem beijos. Já não querem dormir na nossa cama. Já nem querem é dormir em nossa casa. E depois? O que perdemos? Eu não quero perder nada. Aproveito tudinho do que o meu bebé tem para me oferecer. Pudesse eu aproveitar mais.

Ele tem 1 ano. E ontem, na consulta dos 12 meses, a enfermeira diz “Já tem feições de rapazote. Está a deixar de ser um bebé!” NÃO!!-gritou o meu coração. Será sempre o meu bebé.

21-11-2018

Há 1 ano estava como a fotografia mostra. Com aquele “vestido” rosa super sexy. Mais 9kg em cima. As pernocas vermelhas a fazer retenção de líquidos. E a esta hora já íamos em 11 horas de trabalho de parto… Sem sinais do António. A fotografia foi tirada pelo meu namorido que dizia “ainda te vais rir destas fotografias”. Já ri muito (porque esta é a melhorzinha), mas hoje olho para ela e fico nostálgica. Já se passou 1 ano.

Esta fotografia foi tirada por volta das 14 horas. No intervalo de uma contração. O António nasceu às 17h15. Aqui eu andava, andava e andava pela sala de partos, agarrada ao suporte do soro, á espera que o meu corpo e o António estivessem preparados para O momento.

Foi duro. Achei que o meu corpo não ia suportar tamanha dor. As horas não passam, as dores só aumentam de intensidade e são cada vez mais ritmadas. E a ansiedade aumenta a cada contração: será agora o momento?

21 horas depois… No dia 21, ás 17h15, nasceu o António, o bebé mais lindo mundo. Naquele momento o tempo parou. O meu coração acalmou. As 21 horas esqueceram-se. As dores camuflaram-se. E, naquele momento, em cima do meu peito, aquele olhar arregalado, sereno… tudo o resto perdeu importância. Era isto. Era isto o mais importante da vida. Dei vida. Dei vida ao mundo.

O pai, de olho brilhante, cortou o cordão e pegou no nosso rebento. E ali ficou, com ele no colo, sentado ao meu lado, não sei quanto tempo. Para nós, ali, o tempo parou.

A ti, meu companheirão, que me viste 9 meses a inchar. Vinte e uma horas com aquele “vestido” sexy, umas 10 horas a contorcer-me. Duas horas de pernas abertas (literalmente) a gritar. Um mês de fralda. Mamilos gretados, banhos que não eram tomados. E mesmo assim continuas-te aqui a achar-me linda e maravilhosa. Pessoal!! Isto é amor. É amor. Companheirão, o nosso filho faz 1 ano.

Foi o ano mais maravilhoso das nossas vidas. O António é o bebé mais lindo do mundo. De sorriso fácil. De ar meigo. Sempre de braços abertos para o colinho. O nosso bebé bem disposto que veio dar calor ao nosso lar.

Um ano. Parabéns, meu amor. Parabéns a nós, companheirão.

Os nossos filhos são da vida

“Os vossos filhos não são vossos filhos: são filhos e filhas do chamamento da própria vida. Vêm por nosso meio mas não de vós; e, apesar de estarem convosco, não vos pertencem. Podeis dar-lhes o vosso amor mas não os vossos pensamentos: porque eles têm pensamentos próprios. Podeis acolher os seus corpos mas não as suas almas: porque as suas almas habitam a casa de amanhã, que não podeis visitar nem sequer em sonhos. Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não tenteis fazê-los como vós. Porque a vida não vai para trás, nem se detém no ontem. Sois os arcos, e os vossos filhos as setas vivas projetadas. O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e retesa-vos com o seu poder para que as setas possam voar depressa para longe. Que a vossa tensão na mão do Arqueiro seja de alegria. Porque assim como Ele gosta da seta que voa, também gosta do arco que fica. “

Este texto está no início do livro “Educar com Mindfulness”. Assim que abri o livro li este texto e logo fechei o livro. E pensei: não estou preparada para isto. Isto é o desapego. Não estou preparada para o dia em que o meu filho já não precisa de mim. Não estou preparada para o dia em que o meu filho me diga: mamã eu adormeço sozinho. Ou para o dia em que ele diga: mamã eu visto-me sozinho. Muito menos para o dia em que ele diga: larga-me, não quero beijos em público.

Todas estas fases fazem parte. Dos filhos… Mas dos pais não. O meu filho será sempre meu filho. Eu serei sempre mãe dele. Mas haverá um dia em que ele “só” precisará que eu exista. E é bom. Significa que fiz um bom trabalho como mãe. Mas e o nosso coração? Agora reclamamos que ele não dorme na cama dele, que só quer dormir na nossa. E quando ele disser que nem sequer quer dormir em nossa casa?

Passamos a vida á espera que o tempo passe. Queremos que as fases cheguem rápido. Mas depois reclamamos que o tempo passa a correr. Seremos todos bipolares?

Eu não quero que o tempo passe. Quero o meu bebé sempre bebé. Quero que ele precise de mim para adormecer e que queira dormir sempre encostado a mim. Quero que ele precise de mim para comer. Para vestir. Para brincar. Para sorrir. E a querer isto tudo com muita força… O tempo corre. Vai fazer um ano… Já deu os primeiros passos sozinhos. Está, aos poucos, a deixar de ser meu para ser da vida.

Sorrio, festejo e grito com cada evolução. Mas quando deito a cabeça na almofada dou por mim a sentir que o tempo está a fugir-me por entre os dedos. Aquele tempo precioso em que eles são só nossos.

O António é da vida. Mas, meu filho, serás sempre meu.

Cisma ou transtorno?

Isto é ponto assente: ansiedade não é uma cisma. Ansiedade é um transtorno. É frequente ouvir as pessoas repetirem que são ansiosas porque estão a conferir frequentemente as horas, porque esperam ansiosamente por algum acontecimento, mas ser ansioso é muito mais do que isso. Ansiedade está presente quando motivos aparentemente normais causam nervosismo, preocupação e até angústia.

Isto é um assunto que me é particularmente familiar. Lembro-me de ser ansiosa desde que sou gente. Estou sempre a pensar em eventos futuros, em datas próximas, a ver o telemóvel, a ver as horas, a confirmar se desliguei as coisas, se fechei o carro. E mesmo com todas as confirmações há vezes em que volto atrás para confirmar (again). Para confirmar que ficou bem confirmado.

Aos 15 anos fui diagnosticada com o transtorno da ansiedade. Sim, leram bem. Transtorno. Ser ansioso nem sempre é mau, mas quando chega a diminuir a qualidade de vida, torna-se transtorno. É desde aí que passo por diversos ciclos. Ora ando bem. Ora ando meramente ansiosa. Ora ando muito mal e a coisa precisa de químicos para acalmar.

Valha-me as unhas para aliviar (não me orgulho disto). E quando não pode ser a das mãos, porque está ali ao lado alguém a dizer “tira as mãos da boca!”, vai a dos pés mesmo. Calma, não meto os pés na boca. Flexibilidade, mas não exageremos. Vou com as mãozinhas ao pés e lá se vão as unhas. Ficam todas aos altos e baixos. Quando não dá nem uma coisa nem outra, ora vai uma mordida na parte interior da bochecha, ora vai um ranger de dentes, ora vai um perna que baloiça, baloiça e baloiça até parecer que me vai sair do corpo. Isto em dias meramente ansiosa. Em dias muito maus a coisa agrava-se. Vai-se a fome, vai-se o sono, vai-se o ânimo, vai-se tudo.

Ansiedade é vista, como aliás a maior parte dos problemas do foro psicológico, como uma cisma. A maneira como nos abordam passa muito por: “não penses nisso”, “não ligues a isso”, “isso é tudo da tua cabeça”, “não dês importância” (…)

Não funciona, pessoas! Não funciona! Pelo contrário. Um conselho de quem percebe da poda. Se não sabem o que dizer: Abracem!

Arrependimentos

2019 está a acabar. Dá para acreditar que já passou mais 1 ano? O António está quase a fazer 1 ano. O tempo corre.

Na reta final do ano, é tempo de fazer reflexões. O que correu bem, o que correu menos bem, o queremos manter e o que queremos mudar no novo ano que se inicia em breve.

O que está feito não dá para alterar, mas dá para concluirmos que não faríamos novamente da mesma maneira. E eu, certamente não voltaria a repetir uma coisa: voltar ao trabalho aos 4 meses do meu bebé.

Voltar a trabalhar ao fim de 4 meses de licença foi a pior e mais dolorosa experiência da minha vida. Algo que por palavras é difícil de explicar. Parece que nos arrancam um pedaço de carne a sangue frio. Parece que nos tiram um membro e nunca mais nos devolvem. No dia em que vim trabalhar escrevi “a cabeça vai, o coração fica”. E isso mantêm-se. Sempre. Todos os dias.

Podia ter prolongado a licença, mas ingénua achei que a empresa não merecia que lhe falhasse. Mas falhei eu ao meu filho. Não estive lá o tempo que ele merecia e só mais tarde percebi: ninguém é insubstituível dentro de uma empresa, mas a mãe… A Mãe, ninguém a substitui.

É claro que ele estava bem, mas não estava comigo. Eu sei que ele estava bem estregue, mas não estava comigo. Não era eu que lhe dava a sopa. Não era eu que lhe dava o lanche. Não era eu que estava ao lado dele nas sestas. Não era eu. E continuo a não ser eu. É frustrante. E também é uma bipolaridade de sentimentos: eu sei que toda a gente tem de trabalhar e sei que a maioria das mulheres passou ou está a passar por isto, mas cá dentro não aceito. Não compreendo os 4 meses.

Estou com horário reduzido. 10h ás 17h. Dia 22 deste mês, termina. Vou passar de 7 horas para 9 horas longe do meu rebento. Que tempo resta para ele? A noite. Só.

Podia ter aproveitado todo o tempo que ele merecia e não aproveitei. Não aproveitei o meu filho até ao máximo. E agora não posso voltar no tempo. É o meu maior arrependimento de 2019.

Recebi esta foto num dos primeiros dias pós licença. Continua a ser um dos meus refúgios quando bate a saudade.

As manias das mulheres #2

Há uma coisa na minha mãe que sempre amei de ódio: para sairmos de casa para qualquer lado tínhamos de deixar a casa intocável! Tudo arrumadissimo! E eu perguntava-me “mas para quê? A seguir estamos de volta e podemos arrumar.”

Resposta: Nós sabemos como saímos, mas não sabemos como entramos. Nunca se sabe o que pode acontecer. E se acontece alguma coisa depois é uma vergonha.

Isto é lindo, lindo. Este espírito de passeio fascina-me. Ora então, vamos ali dar um passeio. Mas arrumamos primeiro a casa de uma ponta á outra, limpamos o pó, arrumamos a roupa, passamos a esfregona, damos verniz na madeira, damos ali um retoque na pintura, que nunca se sabe se não temos um acidente pelo caminho, ou sei lá eu até morremos e depois como é? Vem cá a aldeia visitar-nos, ou, meus amigos, ao nosso velório. E depois como é gente? Como é? Está ali a sapateira cheia de pó, está ali uma rachadela na parede, está ali um chinelito fora do sitio, está ali uma cueca no chão. Meu Deus, que vergonha!

Tanto reclamei, tanto gozei, tanto achincalhei a minha mãezinha com este pensamento (que ela me perdoe), e ela rogou-me uma praga tão grande, tão grande que virei a versão dela mais nova 25 anos. Que os santinhos todos me perdoem (já que ontem era dia deles) mas ontem antes de sair de casa passei a minha casinha toda a pente fino (para não dizer a cotonete). Isto dá cabo da cabeça de uma pessoa. Aqui A Mãe Do António fica velha.

Do alto dos meus 24 anos não consigo ver um chinelito fora do sitio, senhores. Alguém conhece o antídoto? (já implorei á minha mãe que desfizesse a praga, mas ela diz que assim é que está certo. Acho que ela não me ama).

Ao menos é fim de semana prolongado. Posso limpar a casa outra vez hoje e amanhã. Ufa!